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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

José de Arimathéa Tito Filho, por ele mesmo

Organizado por José Antônio da Silva* **

ARTISTA
Já se disse que o homem ordinário pactua com as injustiças sociais, mas o artista não pode com elas pactuar.

COMUNICAÇÃO
O homem, desde épocas primitivas, comunica o que deseja, o que determina, o que pensa, de maneiras inumeráveis: pelo que veste, pelo que  come, pelo olhar, pelas cores, por figuras, gráficos, imagens, pelo toque do sino ou do clarim, pelos usos e costumes que adota, expressando, pois, um mundo de mensagens que revelam aos outros as estruturas de sua personalidade.

COMUNIDADE
As comunidades humanas de vez em quando padecem provocações, que resultam de cousas diversas ­– crimes, intempéries da natureza, epidemias, atitudes passionais dos grandes ajuntamentos humanos, imprevidência das pessoas ou dos governos e outros.

CULTURA
A própria vida vale o conjunto de todos os processos culturais.

ECONOMIA
Nunca. Não confundamos finanças com economia. Nós podemos Ter dinheiro no bolso e sermos integralmente despreparados para a vida. E ainda podemos Ter muita economia conosco e não termos o que é necessário normal do homem, que é o dinheiro. A economia é um processo de felicidade das comunidades, de bem estar ...

ESCRITOR
Diríamos que o escritor vive num meio hostil, de intrigas, de invejas, de hipocrisias, e tudo vai derrotando o artista que chega ao ponto da acomodação. Ninguém repudia as idéias, mas se acomoda às normas de força das ditaduras reais ou aparentes.

... quando novo, o escritor é antiacadêmico por natureza. À proporção em que ele envelhece, busca as academias porque, ao cabo de contas, elas exercem, em virtude do próprio bafejo oficial, proteção a quem já se sente deserdado da sorte.

ESCREVER
Um livro, uma poesia, um pensamento que se escreve vale um filho espiritual muito terno. Então, qual o pai que gostaria de Ter um filho chamado de feio, de aleijado? Procuramos, pois, incentivar a quem escrever alguma coisa. Não fazemos elogios derramados, tanto que acontece uma coisa que muitos não observam: quando não temos nada que dizer do livro, falamos do autor, da pessoa, dos seus traços humanos, dos seus sentimentos; no final, alguma referência ao livro, acentuando o esforço do autor, a sua simplicidade, sem que destruamos os seus desejos e pretensões. Achamos que o melhor caminho para educar é o caminho do afeto, do querer bem.

HISTÓRIA
A ninguém é dado negar a importância da História na vida dos povos. Desenganadamente, fazê-lo é desconhecer que, sem ela, torna-se impossível a continuidade da cultura. Com efeito, sem memória, as civilizações ficam sem passado.

LINGUAGEM
A linguagem humana é meio de entendimento da comunidade que se manifesta por processos vários. Há a linguagem literária, asseada, estruturada, e ao lado dela a linguagem natural, despoliciada, no contato com os amigos, nas diversões, a linguagem chã, plena de expressões triviais, veículos de entendimento geral, que todos compreendem, instrumento de conversação do doutor com a verdureira, do sábio com o limpador de sapatos.

Há outros processos de linguagem: a linguagem dos gestos, dos dedos, dos olhos, a linguagem da gíria, por via da qual o povo ironiza situações e caracteres, e ainda a linguagem dos grupos profissionais, com a força psicológica do vocabulário na variedade desses grupos: trabalhar para o médico corresponde a operar, mas de trabalhar o ladrão tem entendimento diverso. E chegue-se ao calão, o processo de linguagem  deseducada, comum no submundo da malandragem, do meretrício.

A linguagem dos homens se manifesta por processos vários. Há a literária, polida, asseada, rica, regida por preceitos gramaticais; existe a usual, despoliciada, de todas as horas, a linguagem chã, planiciana, de estragos fonéticos, governada pelo menor esforço, aquela que é o veículo de entendimento geral. Adiante, a linguagem dos gestos – dos dedos, da cabeça, do piscar de olhos. E ainda a gíria, por via da qual o povo ironiza pessoas e episódios, e estabelece relações entre os objetos, a gente e os fatos. E mais: o processo da linguagem emotiva e do calão. E também uma maneira especial de comunicação, de causas profundas – um modo de ser representado pelo linguajar das pequenas paisagens populacionais, de reduzidas comunidades de povo, de lugarejos e
vilas ...

LITERATURA
São muitas as correntes literárias que dominaram a vida espiritual dos povos. Classicismo, romantismo, realismo, naturalismo, parnasianismo, concretismo, modernismo e quantos mais. Cada qual tem interpretação própria e autores respectivos. A crítica sempre procurou defini-las, como agora  fazemos, sem que sejamos críticos mas apenas ledor de documentos da literatura, com o polifonismo.

LIVRO
Dar livros de presente aos amigos é uma prova de que os consideramos inteligentes e cultos.

Os livros merecem todo nosso respeito, admiração e carinho: são eles que nos dão os conhecimentos de todas as ciências e artes. Em suas páginas é que registram todas as causas importantes da terra. Eles nos instruem e nos divertem. Servem de passatempo, de calmante, de remédio. Em uma palavra, os livros aumentam a nossa responsabilidade.

MUDANÇA
É necessário que haja reação e reação heróica. Faliram-se as elites políticas confundidas com os donos da economia dos povos; a salvação está na inteligência aprimorada que não se venaliza e na coragem de luta dos que têm fé.

NOVELA
Ninguém ignora que a novelística corresponde ao gênero literário da novela – um gênero difícil da criação artística, porque reclama ordenamento, sobretudo. A novela vale-se de fatos humanos reais, ou, quando fictícios, via de regra, verossímeis. A narrativa de ser curta, mais completa, integra ...

PALAVRA
Dispõe o homem da palavra – e as palavras substituem as cousas e realizam um vasto e eficaz processo de linguagem. Qualquer que seja a linguagem humana, porém, dos gestos, dos cânticos, das convenções, da fala, das artes, o seu estudo deve ser antecedido pelo conhecimento do símbolo, que se representa por signos e sinais.

POESIA
Se não disseram, é necessário que se diga: a poesia corresponde ao sentimento do mundo,  -  o sentimento das cousas, dos gestos, dos caracteres humanas, da natureza, da vida espiritual, da família, do afeto, dos aspectos filosóficos nas atitudes do homem, assim da forma que se elabora a poesia intimista e social.

Não cabe dúvida de que a poesia tem elevada função social e de que os poetas podem defender pontos de vista morais e políticos...

VERDADE
Nós temos sestro tristíssimos: quando ocupamos um cargo, ficamos empanturrados de grandeza, vaidosos, e acreditamos que apenas nós temos a verdade. Quando achamos que um professor não está seguindo o bom caminho e damos palpite a fim de que ele erre menos, o mestre se aborrece, passa a antipatizar conosco, ás vezes a odiar-nos, por isso nos eximimos de crítica.

Bibliografia

* SILVA, José Antônio da. Dicionário de Sabedoria dos Piauienses - citações máximas sentenciosas do pensamento reflexivo dos Piauienses de todos os tempos. Teresina: EDUFPI, 2004.

** O blog agradece encarecidamente à José Antônio da Silva por ceder o texto publicado acima. 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

P2

Na meninice vadia, em 1931, comecei a freqüentar o 4 de Setembro, transformado em cinema. Novembro daquele ano, Alfredo Ferreira, velho e bom amigo que o segredo da morte arrebatou, inaugurava o filme falado no velho casarão da atual Praça Pedro II. Se me lembro e quanto dos famosos seriados, dos primeiros filmes de Tarzan, dos terríveis padecimentos daquele que a imaginação de Dumas transformava no rico, poderoso e vingativo conde de Monte Cristo, - e parece que ainda se fixam na memória, com nitidez espantosa, as gags de Oliver Hardy e Stan Laurel (o Gordo e o Magro) e o humorismo permanente do home que não ria, Buster Keaton. Heróis e heroínas da infância, da adolescência e da mocidade, dum tempo que o tempo sepultou mas impossível que a lembrança possa sepultar.

Bem vivas as recordações dos dias em que o castigo paterno recusava o dinheiro semanal da diversão. Que fazer? Bolsos vazios, surgiria o moleque, igual aos outros pela mesma forma personificados: falta dos tostões para o reencontro dominical com artistas e bandidos cinematográficos de Hollywood. O jeito estava em varar o cinema e varar correspondia a atitudes de acrobata do circo: a gente saltava a grade de ferro do 4 de Setembro. Chegava-se a área arborizada. Daí à parede lateral eram poucos passos - e subia-se coma  ajuda das saliências da construção até atingir as janelas do andar superior - sempre abertas por necessidade de ventilação - e facilmente se transpunha a grade. O cinema adquiria mais um freqüentador sem pagamento dos 1$100 (mil e em réis) de entrada. Tempo bom da meninice irresponsável.

Alfredo Ferreira, o proprietário, mantinha fiscais para surpreender os varadores, e estes, quando pegados com a boca na botija, eram expulsos pela porta principal.

Mas como sucedia, às vezes, de modo diferente, pois eu tenho madrinha de excelsa bondade, justamente a madrinha que se encarregava, alguns instantes da porta de entrada dos freqüentadores - D. Farisa, esposa de Alfredo Ferreira, coração de afeto e de virtude. Pois quando me surpreendiam em varação e me levavam a saída, D. Farisa, quase a piscar-me um dos olhos, atestava:

- Esse, não. Pagou a entrada. Eu vi.

Quando na portaria não se encontrava D. Farisa, o jeito era deixar o cinema.

Foi no 4 de Setembro que um morenão bonito, de cabelos negros, seios empinados, sem sutiã, me iniciou, nas práticas amorosas de bolinação de virgem.

E ainda no 4 de Setembro assisti, no governo Leônidas Melo, a notáveis representações teatrais - e muito me recordo da companhia de Álvaro Pires, que o governante trouxe do Rio de Janeiro para divertir e educar a comunidade teresinense.

Dia 26 de dezembro de 1974, assumi as funções de Secretário da Cultura do Piauí, a dois meses e dias do término da administração do engenheiro Alberto Silva. Participei, assim, oficialmente, da reinauguração do 4 de Setembro - com muita alegria, pois 4 de Setembro vive no meu espírito como integração de três fases da vida - infância, adolescência e mocidade.

A. Tito Filho. In: P2: Praça Pedro II, dos anos 30 à década de 90 

domingo, 1 de janeiro de 2012

A. TITO FILHO (José de Arimathéa Tito Filho)

CRISTINO Castelo Branco faz, neste grito de revolta, o retrato mais fiel de A. TITO FILHO (José de Arimathéa Tito Filho), lutando nesta esquecida e paupérrima província do Piauí, com as armas da inteligência e da coragem, pela valorização das Letras como artífice do espírito que, para ele e para todo homem de pensamento, no dizer de Humberto de Campos, "é um encanto e um tormento".

"Seja, porém, como for, felizes ou infelizes, contentes ou desgraçados, aplaudidos ou apedrejados, ricos ou miseráveis, os homens de talento não esmorecem, e lutam, e trabalham, e produzem, enriquecendo sempre, cada vez mais, o patrimônio espiritual da Humanidade. Cumprem a sua finalidade social e histórica. Obedecem à fatalidade orgânica que os fez superiores à vala comum da mediocridade. Estão todos convencidos daquela altíssima e sempiterna verdade, proclamada pelo Dante Alighieri, em versos imortais da Divina Comédia de que "não se alcança, entre sanefas, em coxins, a fama", e de que "Quem percorre sem glória e gasta a vida,/Não deixa sobre a terra outro vestígio,/Mais que o fumo no ar, a espuma nágua".

Não se pode dizer, diante de sua versátil formação cultural, que A. TITO FILHO é, apenas, uma coisa: jornalista, crítico, poeta ou orador, embora tenhamos de reconhecer, para sermos pragmáticos, que ele tem dedicado a maior parte do seu tempo fazendo imprensa, tanto assim que o acadêmico Simplício de Sousa Mendes, ao recebê-lo na Academia Piauiense de Letras onde iria sentar-se na cadeira de seu pai, proclamou essa faceta de sua personalidade: "Cultor apaixonado do vernáculo, preceptor emérito da mocidade piauiense, colocais a vossa pena e o vosso estilo vibrante ao serviço da imprensa periódica".

ÓRFÃO materno ainda no albor de sua vida agitada, recebendo ainda na fase da inocência, desse Destino que às vezes tem gestos tão cruéis, como esse de ferir uma criança, uma punhalada brutal pelas costas, e amargando ainda na sua mocidade o golpe fatal da perda do pai que o homem atraiçoou também pelas costas, A. TITO FILHO plasmou a sua formação de revolta em revolta, fazendo da imprensa a sua trincheira e da sua inteligência a pólvora do seu arcabuz, com o qual, sem medir conseqüências como fazem os grandes heróis, tem destruído muitos Golias. Já imaginaram, a dor de um filho vendo o pai atirado numa cama durante vários anos? Já pensaram o que significa para um homem ver, nas costas de seu pai, o cabo do punhal de Bruttus e o sangue coagulado que vertera de suas veias rompidas? Já puderam aquilatar o que pode significar para um filho ter na memória, como um fantasma, a imagem do pai, inútil como uma boneca quebrada, estertorando longos anos na solidão de uma cama?

A. TITO FILHO guarda tudo isso no cofre do seu coração, com o terrível amargor de uma estranha saudade. Quem conhece a personalidade férrea de seu pai e conserva na memória a sua heróica vida jurídica que um ditador destruiu, há de convir que o filho único desse lar angustiado pelo Destino, é a imagem fiel do pai: na defesa dos injustiçados e na condenação dos que carregam a mácula da culpa e pedem clemência.

O filho guarda ainda, com muita nitidez, a desgraça emocional do pai, escrevendo ao lado da mãe morta, para consolar o coração partido, os versos que têm a marca da lágrima e o estigma do desespero:

"Dois anos, nove meses, vinte dias...
Que tempo curto para amor tão forte!
Nize! que mãos tão gélidas, tão frias!
Nize! Sem ti sou náufrago sem norte...

O nosso teto claro. Hoje, sombrias
As paredes, não há quem lhes suporte.
Tudo denota as fúnebres magias
Da figura tristíssima da morte.

Parece sonho... Mas ficou no mundo
Um serzinho gentil, rebento santo
Do nosso amor grandíloquo e profundo.

Deus te guarde no Céu, morta querida
Como nosso filhinho guarda o pranto,
- Sinal eterno de eternal ferida".

NA literatura piauiense A. TITO FILHO tem sido uma espécie de guia, prefaciando uma quantidade incontável de obras, conduta que apresenta duas faces positivas para os incipientes: encoraja-os a enfrentar o bicho-papão da crítica especializada ou pública e incentiva-os, nos seus primeiros passos nos meandros das Letras, cometendo apenas o pecado - segundo me parece - de se exceder em louvores, com graves prejuízos para a maioria, que se envaidece e, por isso mesmo, já pensando que está consagrado diante da valiosa opinião de um Mestre como ele, reduzindo, por isso mesmo, a produção literária ou encostando, de uma vez, a pena ou deixando empoeirar a máquina de escrever. Esse comportamento que é nato da bondade nazarena de A. TITO FILHO, às vezes gera ingratidões, como uma que assistimos há pouco tempo, de um poeta camoniano que, com alguns livros fracos publicados, com o mérito apenas do sentimento poético que nele é seivoso, armou-se do direito de criticá-lo sem a prudência de ver nele, antes de mais nada, o seu antigo pai espiritual ou, pelo menos, para ser grato ao favor recebido, o generoso caminheiro que achou na estrada, que lhe estirou a mão e lhe deu, sem cobrar ou esperar recompensa, alguns grãos de alpistes, para saciar ou minorar a fome de luz que carregava na cabeça sonhadora. HÁ de se ressaltar, todavia, um outro aspecto da personalidade de A. TITO FILHO, muito similar com a conduta do autor desta obra há muito reclamada pelo Piauí: a sua virulência na reação aos que lhe atiram pedras, devolvendo às vezes dez em quem lhe joga apenas uma ou duas, jamais partindo de sua funda de Davi o primeiro petardo, ou o primeiro disparo do seu arcabuz.

CONHECIDO em todo o Brasil por força de seu invejável poder de comunicação, e do seu trabalho literário e jornalístico, A. TITO FILHO, sem nenhum intuito de lisonja exacerbada ou de bondade paternal, é hoje, para honra do Piauí, um nome nacional, devendo-se reconhecer que, fora das nossas lindes, o seu nome cresceu mais como orador, herança legítima do pai, que levou seu recipiendário na Casa de Lucídio Freitas - Simplício de Sousa Mendes - a este conceito justo: "Tal qual se ouviu - sucessor do pai ilustre e do patrono, que fulgem na galeria dos grandes homens do Piauí - teceu, como de praxe, com exatidão, fervor e eloqüência de estilo, o panegírico de ambos que, nas letras e nas atividades superiores do nosso Estado e da Pátria, conquistaram o galardão supremo da imortalidade".

COMO padrinho dos novos das letras do Piauí, para que todos sintam o seu zelo e a sua preocupação pelos marinheiros de primeira viagem da literatura de sua terra natal, trago a este livro que estava faltando nas estantes do Piauí, alguns conceitos de A. TITO FILHO sobre aqueles que, como eu, bateram a sua porta para receber dele, como um pajé que abençoa e que perdoa, o conselho útil, a orientação segura, para trilharem, com maior tranqüilidade, só caminhos traiçoeiros das letras - aqui iluminados pelo sol ardente do sucesso, ali mergulhados na escuridão do fracasso.

APRESENTANDO o livro COLHEITA MÍSTICA, do poeta José Ribeiro e Silva, por sinal a primeira gestação do inspirado vate: "Li, faz anos, muitos anos faz, esta indicação de Anatole France: os poetas não fazem concorrências aos filósofos porque estes pensam e aqueles não precisam de pensar. Anatole derribava, assim, o conceito de Brunetière: ‘O que se exige de um poeta é que ele saiba, que observe e que pense, entrando, de algum modo, na vida comum’. De feito, Anatole pretendia apenas que os poetas não fôssem filósofos, que não pensassem, mas sentissem. Poesia corresponde a sentimento, embora não seja incompatível com os grandes pensamentos.

EM COLHEITA MÍSTICA, José Ribeiro e Silva não esquece o drama social dos homens, medita acerca de Deus e do mundo, procura uma interpretação para o amor - e produz aquilo que poderia chamar-se de poesia-ideologia, como Vogt, entusiasta, viril, obstinado, porém lírico, marcadamente subjetivo, de íntima espiritualidade. Harmoniza Anatole e Brunetière: pensa e sente. Busca o conteúdo sério dos temas e trata-o com personalidade original, solitária, sensível, afetiva. Provoca manifestações de poesia pura, a chamada poesia essencial, que é segredo d'alma, depoimento de afetos e concepções. Poesia reduzida à tênue e sutil expressão dos notáveis dramas interiores.

Aqui e ali José Ribeiro e Silva revela curiosidade infantil a respeito da vida - das paisagens, das gentes, dos gestos - e passa ao amor, a paz que é a conseqüência dos que amam, e concentra-se na natureza do homem, para romper os limites do real e situar os que lêem entre o que seja verdadeiro e o que seja imaginário.

Não estará em erro quem disser que José Ribeiro e Silva pertence ao movimento de renovação poética da atualidade. Nele se agita o objetivo de criação da poesia sensorial: cada palavra tem uma alma e cada verso, além da harmonia verbal, terá uma melodia ideal. A música é a idéia, e o seu ponto de partida se concentra na mais absoluta liberdade. Vai adiante. Sabe romper com a tradição para construir uma visão lírica do passado e para interpretar, às vezes enamoradamente, todos os horizontes: os heróis, as cenas da vida, o verdadeiro, o rico, o sonoro, o sonho. No poeta o mundo deixa de ser beleza e transforma-se em interrogação.

É preciso sentir no autor de COLHEITA MÍSTICA, como o grande toque de sua poesia, o sentimento do espírito coletivo, e isto quer dizer: fraternidade e amor da liberdade.

MAIS um instante de poesia nasce no Piauí - um instante de solenidade para vigoramento das letras e projeção de um poeta da beleza como universalidade e finalidade, e da harmonia como totalização da beleza, segundo Lalo".

PREFACIANDO o livro póstumo da poetisa CRISTINA LEITE, mestre A. TITO FILHO diz, entre outras considerações:

"IMPRESSIONANTE, Professora Cristina, a sua viagem de anotação do lirismo dos dias que correm - ambos partidos do "trabalho" do povo. Fez a Mestra como queria Gustavo Freitag: para que se aprecie a evolução da poesia popular, basta observar o povo na sua época, com as suas características, com os seus costumes, com as suas virtudes, as suas paisagens, os seus consentimentos e as suas condenações.

POR que foi quase essencialmente amorosa a poesia medieval? Porque no século XII se definiu uma nova ordem econômica - o regime da propriedade de que nasce a força para defendê-la. Criaram só senhores feudais, com esse objetivo, a cavalaria, e ao lado da defesa da propriedade surgiria a defesa da fé, nas Cruzadas - e do heroísmo e da aventura promanaria o espírito cortês, sobre a base do amor, da valorização da mulher, da sua divinização, e trouvèrs e troubadours - na observação de Cláudio Araújo Lima - cantaram e improvisaram romances heróicos, os primeiros, e dramas e episódios amorosos, os segundos - estes finalmente apoiados no típico sentimento provençal".

TRAZER a estes retalhos biográficos, de curto fôlego, tudo aquilo que A. TITO FILHO escreveu sobre autores novos e velhos, seria alterar a estrutura de um estudo que, pelas suas características sintéticas, não deve ir além do eco de um grito. O autor desta obra, transpondo par aqui, as duas opiniões acima, quis mostrar, apenas, notadamente para quem não conhece a profundidade cultural deste Mestre, que ainda aguarda o prêmio maior de sua luta para cultura do seu Estado, a seriedade de sua conceituações, feitas, como foi visto, dentro do rígido critério de análise, para poder ter força e validade perante a exigente e desumana opinião pública, obediente ao que ensinou MACHADO DE ASSIS: "... a crítica que não analisa é a mais cômoda, mas não pode a pretender a ser fecunda". E se, às vezes, extrapolou os limites da tolerância nos seus conceitos, com uma obra na mão, publicada ou ainda inédita, foi porque a sua bondade não pôde reter a sensibilidade imensa de seu coração, chegando vez por outra a embargar a voz na leitura de um verso ou de uma frase em que o autor escreveu molhando a pena na lágrima sentida que saltou do coração.

O autor desta obra vem acompanhando, com todo o desvelo, como quem observa, extasiado, a trajetória do sol pisando a concha azul do céu, a vida cultural de A. TITO FILHO, fazendo esta confissão em livro autobiográfico ("PISANDO OS MEUS CAMINHOS") à escritora Lili Castelo Branco ("HERMELIDA" e "OS AMORES DE TOMÁS"): "A. Tito Filho, a quem a senhora pede, no sublime encanto de sua linguagem de mulher, que atente para a minha vida, lembrando-lhe o dever de me conduzir à Casa de Lucídio Freitas (Academia Piauiense de Letras), certamente não vai se servir de sua rogativa, como o oleiro hábil e experiente que não precisa de mestre para fabricar com esmero o seu tijolo, a sua telha e o seu alguidar, pois ele tem andado comigo de braços dados, pelos caminhos acidentados da minha vida de homem de letras".

DE sua pena, que ora reza e que ora fere, como um Messias que orasse pela salvação de um pecador ou que zurzisse com um chicote de cordas os profanadores do Templo, saiu o retrato mais fiel do autor deste livro - tão real como uma tela de Renoir, em que a luz parece gritar: "A infância de sofrimentos materiais e a mocidade do mesmo jeito, fizeram de J. Miguel de Matos, o pessimista, a dizer que, embora realizado por virtude do esforço da inteligência, continua a sofrer porque ama o próximo e a humanidade. Distribuiu poesias sentimentais por muitos jornais e revistas, - verdadeiros cânticos de amargura e inquietação. Observador das paisagens e dos homens que nelas se agitam, escreveu a novela "BRÁS DA SANTINHA", de que ele participa como personagem de um mundo que o educou para a sublimidade das grandes resignações".

NÃO é, porém - e Deus é testemunha disso - a comunhão humana e cultural que tanto afeto gerou entre mim e A. TITO FILHO, que me faz biografar, com os recursos pobres da minha cultura, este gigante das letras do Brasil, porque ele, como homem de pensamento, já é patrimônio nacional, podendo, sem nenhum favor, sentar-se numa poltrona da Academia Brasileira de Letras, que deve desconhecê-lo, apenas, por ser ele, como tantos valores, mais conhecido na quase desconhecida e opaca província do Piauí, que tem sepultado, por isso mesmo, na poeira de seu olvido crônico, figuras luminares como Higino Cunha ("Nas guerras e nas revoluções, às vezes, o burguês e aldeão mais pacífico e ordeiro, que jamais pensou em fazer mal a ninguém, incorpora-se na multidão incendiária e pratica prodígios de bravura, tornando-se, afinal, herói ou bandido, se porventura vencedora ou vencida a causa que adotou, por acaso. Mas isto não é somente infantil ou atávico, mas de todos os tempos, porque é puramente humana"), Clodoaldo Freitas ("Não posso compreender e muito menos invejar as vanglórias do poder. Quem transita por essas alturas, exposto aos vendavais de todos os ódios oriundos de interesses em conflito, será realmente feliz? Não vejo porque. As contrariedades do poder amargam muito mais que as suas delícias") e, para citar só três do grande rosário de talentos do Piauí, Abdias Neves ("Na torre de marfim do sofrimento/Viveu de sombra, louco visionário;/O venticelo da fortuna é vário,/É vário o amor, esvai-se num momento. //Julgas-te forte e grande e necessário/E és pó, apenas pó em movimento;/Só te anima o calor do pensamento/Na eterna cisma do viver nefário.//Homem também, contigo bebo e sinto/Os travos e a embriaguez do acre absinto/Da dúvida fatal que a vida encerra.//Mas, não me cegas, tu, vaidade humana,/Sei que só a matéria é soberana/E que o pó voltará ao pó da terra"). 

TODAVIA, o apego do homem de pensamento ao torrão natal, na sua condição biológica de sentimental que chora a morte de um colibri como se estivesse assistindo, de alma ferida, a morte do ente mais querido, justifica plenamente a permanência sempre definitiva dos que cresceram nas letras, ora usando do recurso da prosa, ora trabalhando a essência da poesia, na terra humilde que o viu nascer, não o inferioriza em nada, sentindo-se "bem em ser, antes e acima de tudo, homem da sua terra, do seu meio, da sua gente, cujos problemas e cuja história o preocupam e são objetos constantes de suas meditações".

NA Academia Piauiense de Letras o seu trabalho tem sido de gigante, ora defendendo-a das críticas que lhe são atiradas na face augusta, ora recebendo um novo imortal e ora engajado com as lutas eleitorais parecendo que a sua simpatia propende mais para os valores autênticos, embora respeite qualquer formação cultural que procure os quadros da Casa de Lucídio Freitas, como um pegureiro que acolhe os que entram e os que já se encontram no seu rebanho, ou como um ministro de Deus que vê em todos, indistintamente, criaturas que carecem do amparo de sua mão.

AO tomar posse na cadeira nº 29 (de Patrono GREGÓRIO TAUMATURGO DE AZEVEDO) e de último ocupante seu venerável pai (Desembargador JOSÉ DE ARIMATHÉA TITO), fez esta confissão oculta de sua humildade tão digna dos lábios de um São Francisco - humildade que ele aprendeu sofrendo ou herdou do dote congenital paterno:

"GOSTARIA de ser humilde, de não me ensoberbecer. Admiro até à inveja os que não são mansos de espírito, os que não ambicionaram os que se contentam com a planície, distanciados dos triunfos e escondidos dos aplausos".

A. TITO FILHO, este grande de instante da literatura e do jornalismo do Piauí, nasceu na cidade de Barras, terra-berço, também, de seu pai. Cidade bucólica e de vida pacata, parece se embalar na cantiga do Rio Maratoã, em cujo chão caminho musicando nos lajedos grandes do seu leito e franjando, lindamente, em espumas de prata, nas lianas que bordam suas margens roídas pelos dentes das águas. Ao nascer, diante dos olhos espantados do pai que ia ter nele seu único rebento, os olhos da parteira chispando alegria, a folhinha marcava o dia 27 de outubro de 1924. D. Nize, subitamente liberta das terríveis dores do parto, dormia tranquilamente, sem saber ainda que Deus fizera gerar no seu ventre um dos gênios do Piauí: o futuro imortal TITO FILHO.

Fez as primeiras letras com a tia paterna Honorina Tito, em Barras. Parte do curso primário, fê-la no Colégio Diocesano, de Teresina, em que prestou exame de admissão e fez o primeiro ano do ginásio. Curso secundário, concluído no antigo LICEU PIAUIENSE, por onde passaram, talvez por determinismo, uma caravana de grandes homens do Piauí. O curso pré-jurídico fez A. TITO FILHO no LICEU DO CEARÁ, outro educandário tradicional que deu muitos homens ilustres à terra de Capistrano de Abreu. Cursou quatro anos a Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, e o último fez na Faculdade de Direito do Piauí, obtendo nota dez em quase todas as disciplinas do currículo acadêmico. Foi orador da sua turma. Prestou exame para professor de Português junto à Faculdade de Direito do Piauí, obtendo a nota 9,8. Submeteu-se a concurso de provas e títulos para catedrático de Português do Colégio Estadual do Piauí, hoje com a denominação de "Colégio Estadual Zacarias de Góis", sendo aprovado com distinção com a nota 9,8 (a segunda nota em concursos em toda a vida do educandário), em que lecionou, também, Estudos Sociais e Organização Social e Política Brasileira. Foi professor de Sociologia da Escola Normal do Piauí e de Língua Portuguesa da Faculdade de Filosofia do Piauí. Advogado. Jornalista. Professor de Português do Colégio Diocesano, do Colégio Leão XIII, do Colégio Demóstenes Avelino. Diretor de "Panóplia", revista da Associação dos Jornalistas. Diretor do "Jornal do Piauí" e Diretor-Secretário da "Folha do Nordeste". Redator do jornal "Estado do Piauí". Colaborador de todos os jornais de Teresina e de revistas do Rio de Janeiro. Exerceu o mandato de Deputado Estadual, durante quatro meses, revelando-se nesse curtíssimo espaço de tempo, um parlamentar seguro e conhecedor profundo dos problemas do seu povo. Diretor do Colégio Estadual, da Associação dos Jornalistas do Estado do Piauí (3 mandatos), Interventor da Federação de Futebol, da qual foi o organizador. Presidente da COAP e seu Consultor Jurídico, no Piauí. Assessor do Ministério da Agricultura no Piauí, por alguns anos. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí. Professor de Português do DASP e da CADES.

Tem o mestre A. TITO FILHO participado de vários congressos culturais e jornalísticos, sempre se sobressaindo como a maior figura nesses conclaves em que, pelo seu talento e pela sua cultura, tem elevado muito alto o nome de sua terra, venho dizer que mais como orador, que é um dos maiores do Piauí, ainda por herança do Pai. Do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Piauí, com atividade altamente relevante em benefício de sua classe, muito esquecida e muito desprestigiada nesta ainda inculta província do Piauí. Do Conselho Estadual de Cultura, estando no momento no exercício da sua Presidência. Ex-diretor da Biblioteca da "Casa Anísio Britto" (Arquivo Público). Professor há longos anos, é um dos maiores nomes do Magistério piauiense, parecendo que ensinar, para ele, diariamente metido na sua bata branca, é a maior paixão de sua vida. Ex-Chefe de Administração do Ministério da Agricultura, no Piauí. Procurador do Instituto de Assistência e Previdência do Piauí (IAPEP). Publicou: "O PROBLEMA DA INFÂNCIA CRIMINOSA", "COMBUSTÍVEL E ALIMENTO: FATORES DE PROGRESSO DOS POVOS" e "DA ATUALIDADE DO LATIM USUAL". Secretário-Geral da Academia Piauiense de Letras, com dois mandatos consecutivos. Com o falecimento de Simplício de Sousa Mendes, assumiu a presidência da Casa de Lucídio Freitas, por um ano, sendo, em 1971, eleito, por unanimidade de votos de seus ilustres pares, para o biênio 1972/73. Relator e principal redator do Código de Ética do jornalismo Brasileiro, no Congresso de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Secretário de Educação e Cultura, no governo Clímaco d'Almeida. Recentemente, publicou um trabalho lexicológico da "LIRA SERTANEJA", de Hermínio Castelo Branco, recebido do autor desta obra, no "Jornal do Piauí", do jornalista José Vieira Chaves, em forma de epístola, a seguinte conceituação:

"QUANDO recebi a LIRA SERTANEJA, de Hermínio Castelo Branco, que me chegou às mãos por sua nímia bondade e por oferta do governador Alberto Tavares Silva ao discípulo e ao governador eremita, que fez do bairro humilde onde mora, um refúgio para as suas meditações graves, dialogando muitas vezes com as sombras e com o silêncio tumultuar das horas mortas para ir matando o tempo que vai findar por lhe matar, senti novamente a forte pulsação do seu amor à terra natal e à cultura, sem usar nas suas apreciações daquela ferocidade de Agripino Grieco que, inversamente ao caro Mestre, não possui aquele doce sentimento de perdoar os caminhantes das letras, nem a impiedade nerina de Antonio Albalat, que se transformou em verme para mastigar e deglutir, violando o sossego dos túmulos, as vísceras sagradas de Émile Zola e Anatole France, autopsiando com o bisturi amolado da sua crítica, como um analista desalmado que acharia desvirtude até em Jesus de Nazaré, na defesa intransigente da pureza literária, os criadores imortais de Germinal e Os Deuses Têm Sede, que são dois monumentos da literatura universal. Na LIRA SERTANEJA o mestre está presente com um glossário, que representa para a obra de Hermínio Castelo Branco, a complementação do livro, como a última mão-de-tinta que se dá numa construção para terminá-la ou como a hóstia que o padre levanta nas mãos orantes, indicando o momento mais alto da missa".

JÁ foi publicado, o primeiro volume de "Viagens ao Dicionário" - etimologia, filologia e semântica, que abrange dez volumes. Em preparo e já concluído o primeiro volume do livro "John Bull e Tio Sam: Invasão" - estudo de anglicismos na língua portuguesa, em seis volumes.

NÃO vá o meu crítico do futuro, pelo sentido apologético que quase sempre dou as minhas obras, dizer que eu estou adorando santo de mentira ou prestando honraria a general de chumbo, ao esculpir a efígie de A. TITO FILHO e de outros valores da literatura do Piauí!

NÃO vá afirmar aquele que vai dissecar a minha obra literária que eu quis, ao falar sobre as personalidades literárias do Piauí, modelar em bronze quem só merece herma de gesso ou de areia!

E se o quiser fazer, por legítimo direito, essa espécie de crítico, é preciso que estude, como eu estudei, paciente e profundamente, a formação cultural e humana de cada qual, para poder verificar, depois daquela análise reclamada por Machado de Assis e José Veríssimo ("A crítica útil e verdadeira será aquela que, em vez de modelar as suas sentenças por um interesse, quer seja o interesse do ódio, quer o da adulação ou da simpatia, procure reproduzir unicamente os juízes da sua consciência").

SE me excedi em louvações biografando meus personagens, talvez não tenha sido por exagerada admiração, mas por aquelas amálgamas que constituíram a formação do autor de "Dom Casmurro", na denúncia sutil de Mário de Alencar: "Suscetível, suspicaz, delicado em extremo, receava magoar ainda que dizendo a verdade".


MATOS, J. Miguel de. Perfis. Teresina: COMEPI, 1970. Pág. 191-200.  

sábado, 10 de dezembro de 2011

SOBRE TERESINA MEU AMOR

Tendo nascido em Barras, município do hinterland piauiense, e estudado no Rio de Janeiro, terra de tudo para todos, em nenhuma das duas cidades encontrou o autor deste livro o clima e a paisagem adequados aos seus ideais de vida.

Nos seus discursos, nas suas crônicas e nos seus diálogos informais aparece com freqüência o sinal de um amor profundo pela terra que já teve o cuidado de lhe oferecer, com injustificável atraso, um título de cidadania. Esta terra é Teresina.

Pois a Teresina de clima combatido por muitos e de gente com defeitos e virtudes comuns a todas as comunidades é o alvo desta obra produzida com especial carinho por quem na verdade a ama com sinceridade profunda.

Mas A. Tito Filho pretende ir mais longe na afirmação do seu interesse por tudo aquilo que diz respeito à capital do Piauí.

Alimenta ele o desejo de escrever completa literatura sobre as ruas desta cidade, invocando principalmente os nomes antigos de certas artérias - nomes bonitos que cederam lugar a homenagens ditadas por manobras inspiradas em irrefreáveis impulsos bajulatórios.

A. Tito Filho pretende registrar designações como Rua Bela, Rua da Estrela, Rua dos Negros, Rua Palmeirinha, Barrocão, Estrada do Gado, Alto da Moderação, Rua dos Cajueiros, Macaúba e tantas outras agora com denominações diferentes, cada qual despida dos sinais de um tradicional que já vai longe.

Mas Teresina Meu Amor, o livro que aqui está, já comprova, em toda sua dimensão, o respeito e a admiração do seu autor às figuras, instituições e coisas da capital do Piauí.


Deoclécio Dantas. In: Teresina Meu Amor – 2ª edição aumentada. Rio de Janeiro: Artenova, 1974. 

SOBRE UMA REEDIÇÃO DE TERESINA MEU AMOR

Este livro foi publicado em 1973 pela COMEPI.

Os termos e espaços mencionados são datados da época do lançamento.

Nesta nova edição, em homenagem ao sesquicentenário de Teresina, preferimos não alterar absolutamente nada nem comentar os fatos passados.

O Livro sai tão puro como nasceu, apenas com a inserção da última parte "Em cada Coração uma Saudade", e o depoimento redigido pela filha do autor, a Drª. Scarlett O'Hara de Matos Tito Fernandes, hoje casada e residente em Belém do Grão Pará. Este depoimento mostra de maneira carinhosa um pouco da vida do nosso querido professor A. Tito Filho. O trabalho torna-se mais rico com a publicação de diversas fotos de sua vida e história.

A publicação desta obra foi possível graças à Presidente da FUNDEC, professora Aldenora Vasconcelos Mesquita, e ao Governador Hugo Napoleão.

José Elias Arêa Leão. In: Teresina Meu Amor. Edição comemorativa do Sesquicentenário de Teresina. Teresina: COMEPI, 2002. 

sábado, 3 de dezembro de 2011

ANÍSIO BRITTO: UMA NOVA CONCEPÇÃO DA HISTÓRIA

São dezesseis anos de presidência da Academia Piauiense de Letras. Dezesseis anos de rememorar aqueles que se foram e que, com o passar do tempo, atingiram os 100 primeiros anos de vida se vivo fossem. Assim fizemos com Antonino Freire, com Abdias Neves, com Pedro Brito, com Matias Olímpio... E já em 1987, outros membros da Academia se encontrariam na mesma idade, como José de Arimathéa Tito, Zito Batista, Esmaragdo de Freitas e Sousa, Celso Pinheiro. De verdade, é necessário que se rememorize o que esses homens gravaram na gratidão do seu Piauí. O ano passado procuramos D. Carlota de Brito Melo, a fim de que ela nos fornecesse os principais trabalhos históricos de Anísio Brito. Por uma desconfiança natural, a desconfiança de que nós não restituíssemos as coleções de jornais, os exemplares únicos deixados pelo esposo, Carlota nos recusou o obséquio. E nós lhe aprovamos a atitude justificada pelo receio de não receber de volta a produção histórica de Anísio de Brito Melo. Mas, aproximando-se o centenário do notável conterrâneo, fizemos levantamento quase completo de seus traços biográficos, dos cargos exercidos, dos serviços prestados ao Piauí e da sua produção histórico-educacional. Mandamos este humilde trabalho ao Governador Bona Medeiros, ao Presidente da Assembléia Legislativa e especialmente ao Deputado Ribeiro Magalhães, conterrâneo do saudoso escritor. Enviamos o trabalho ao Presidente do Tribunal de Justiça e especialmente ao Desembargador Manfred Cerqueira, nascido em Piracuruca - a mesma terra natal do homenageado. Enviamos esse resumo à Secretaria de Cultura, a Colégios, à Universidade, a todos os instrumentos de divulgação de massa de Teresina: jornais, rádios, televisões. Anísio deveria receber dos piauienses as homenagens que a sua memória reclama e merece. Anísio de Brito chegou a Teresina, vindo da modestíssima cidade de Piracuruca, onde exercia funções profissionais de dentista, nos primeiros tempos deste século. Pretendia tentar a vida na Capital, de mais horizontes, de mais conforto, de mais rentabilidade no exercício profissional. E em chegando a Teresina encontrou um ambiente de efervescência de idéias, um ambiente de renovação intelectual, pelo qual foram responsáveis Higino Cunha, Clodoaldo Freitas, Anísio de Abreu, Abdias Neves. Justamente os bacharéis que vinham modificados no seu espírito e na sua inteligência pela famosa e ainda discutida Escola do Recife, com os seus pontífices maiores: Tobias Barreto e Sílvio Romero. Neste ambiente de pregação naturalista, anticlericalista, ambiente de ateísmo confessado, neste ambiente, Anísio recusaria os instrumentos do odontólogo e aderia a conceitos novos e seguia outros caminhos. Tornou-se professor. Ascendeu à direção do Colégio Estadual, na época Liceu Piauiense. No governo João Luís Ferreira, diretor da Instrução Pública. Mantido por Matias Olímpio, depois reconduzido por Landri Sales e finalmente sustentado por Leônidas Melo. Quatro vezes no cargo hoje correspondente a Secretario de Educação. Realizou reforma do ensino, abdicou dos métodos de Lancaster adotados na escola primária. Realizou modificações na educação física, contratando técnicos do sul para este mister nas escolas secundárias do Piauí. Inaugurou o gosto do canto orfeônico e só deixou a paixão pelos motivos educacionais quando Leônidas de Castro Melo lhe entregou tarefas que antes já havia exercido, as tarefas de organizar, dirigir, orientar a Biblioteca, o Arquivo e o Museu Histórico do Estado. Três instrumentos culturais que foram paixão permanente do seu espírito. Pena é que os tempos futuros lhe desmanchassem a obra, separando o Arquivo, a Biblioteca e o Museu, como se as três não fossem peças do mesmo processo, o mesmo processo de busca da verdade. Mas, senhores, seremos resudos sobre Anísio Brito. Desejamos levantar sobre ele questão nova, ainda não analisada, para revelar que Anísio Brito foi possivelmente o único, o verdadeiro, o exclusivo historiador científico do Piauí, aquele que serviu de luz, aquele que serviu de farol a todos os outros que lhe sobrevieram, porque em Anísio de Brito está a verdadeira teoria da revisão da história do Piauí. História com a verdade. Não é possível separar a verdade da história, nem a história terá bases falsas. As bases da história serão científicas do contrário existirá a anti-história, a negação da história. Quatro aspectos da vida social e política do Piauí absorviam a inteligência e a procura da verdade por parte de Anísio. Quatro assuntos sobre os quais talvez até hoje não se tenha chegado a decisão final. A primeira diz respeito ao desbravamento da terra. Domingos Jorge Velho esteve no Piauí? Se Domingos Jorge Velho esteve no Piauí a quem cabe a prioridade do desbravamento do Piauí? A Domingos Mafrense ou a Domingos Jorge Velho? Ainda hoje a polêmica se sustenta. Ainda hoje se discute a presença ou a ausência do paulista. Ainda hoje se entrechocam afirmações sobre se Mafrense aqui penetrou em primeiro ou segundo lugar. Ou se o segundo lugar ou primeiro coube ao paulista. O visconde de Porto Seguro, uma das mais notáveis afirmações da historiografia e da histologia brasileira, sustenta que Domingos Jorge Velho nunca colocou a bota em território piauiense. Barbosa Lima Sobrinho escreveu obra de fôlego sobre a contenda e nela conclui que é absolutamente inverídico que o bandeirante haja pisado o território por ele escolhido para a sua riqueza - o território do Poti. Antônio José de Sampaio, extraordinário Sampaio que sonhou com o Piauí industrializado, ainda no século XIX, admitiu que os dois vieram a esta terra, mas Mafrense chegou em primeiro lugar. Abdias Neves segue o mesmo roteiro. Ambos enriqueceram o Piauí, ambos mataram o índio no Piauí. Mafrense chegou em primeiro lugar. Anísio pesquisou, quis a verdade e concluiu que a prioridade da presença no Piauí pertence ao bandeirante, pertence a Domingos Jorge Velho. Mafrense chegaria depois. E a afirmativa se baseia na pesquisa séria, honesta, severa. É que o movimento das bandeiras no Brasil precedeu, foi anterior ao movimento praticado pelos criadores de gado. Refutou Alencastre, refutou todos os outros e admitiu não a sua verdade, mas a verdade cientifica apoiada sobre as lições da história. Admitamos que Anísio Brito inaugurou no Piauí aquilo em que ninguém havia pensado, a história genética, a história revisionista, história desprovida e destituída de fantasia. A segunda questão levantada por Anísio Brito, uma questão que envolve a natureza provinciana de comunidades piauienses. É que aqui se chocam os parnaibanos com os oeirenses. 19 de outubro ou 24 de janeiro a data da Independência do Piauí? É verdade que quase todos os historiadores asseguram que a Independência é aquela que figura no brasão - 24 de janeiro de 1823. Mas, em 1937, pouco antes, alguns meses antes do famoso Estado Novo de Getúlio Vargas, quando, ainda funcionavam as Assembléias Legislativas, por inspiração de Anísio Brito, o deputado José Auto de Abreu propôs a primazia aos parnaibanos, fixando o dia 19 de Outubro como a data da Independência do Piauí. Com quem a verdade, meus senhores? Com a argumentação de Anísio Brito, sempre baseado no ensinamento da história? Porque a história possui causas e conseqüências, não pode basear-se na fantasia humana! Com quem a verdade? Com Anísio Brito, inspirador de José de Abreu, que deu aos parnaibanos a primazia, embora estes se refugiassem no Ceará e não tivessem a sustentação popular para tornar vitorioso o movimento. O comandante das Armas de Portugal se aproximava com 1.000 soldados e peças de artilharia. Argumenta Anísio Brito com as causas provocadoras dos fenômenos históricos. Se os parnaibanos não dessem o grito de Independência a 19 de Outubro, quando não se sabia se D. Pedro I havia pronunciado a Independência às margens do Ipiranga, Fidié continuaria em Oeiras, obediente às ordens de D. João VI, para manter-se no Piauí a qualquer custo porque Portugal queria criar o Estado do Grão-Pará, com as riquezas do Pará, do Maranhão e do Piauí. A riqueza do gado, do gado que era dinheiro, o gado que valia mais do que a própria moeda, o gado como mercadoria única e importante para sustentar o norte e sustentar sul. Ainda se discute se os parnaibanos têm a glória ou se a glória cabe aos oeirenses. E um dos governadores do Piauí, inspirado em documento assinado por cinco historiadores e um leigo no assunto, quis estabelecer o Dia do Piauí a 24 de Janeiro. O fato é recente, o fato é de agora, e Parnaíba se rebelou, inclusive levantando na zona urbana da cidade forcas para que os autores da idéia pagassem o crime de revolver a história. Outro ponto, sobre que Anísio Brito colocou as suas idéias, está na Balaiada. Todos os compêndios de história do Brasil apontam os balaios como criminosos, assaltadores, ladrões. Anísio Brito, calmo como devem ser os que pesquisam, buscou a verdade histórica e provou com seriedade que os balaios eram vítimas de prepotências do governo imperial, e encontrou apoio num documento que o visconde da Parnaíba despachou para o Ministério do Império. Daí a revolto do negro Raimundo Gomes, uma revolta cívica contra o homem abandonado e espoliado, contra o homem que viva sem terra, sem instrução, vendo apenas desde o amanhecer até o anoitecer a fome aviltante da família. E as circunstâncias permanecem ainda um século depois de ter vindo ao mundo Anísio de Brito Melo. Hoje se faz a justiça que lhes fez 40 ou 50 anos passados Anísio Brito de Melo. A mesma justiça que se faz hoje a Antônio Conselheiro, criador de uma república no interior da Bahia, um sindicato rural pra obrigar que os senhores da terra pagassem salários pelo menos condignos aos explorados na terra do cacau. Depois da justiça aos balaios, Anísio quis que se estudasse a vida, os costumes, a coragem, a dedicação de um homem que durante 20 anos governou a Província com mão de ferro, mas com espírito da ordem para fazer que o Piauí mantivessem a sua independência e vencesse os movimentos contra a sua autoridade e contra a chefia da Província pelo seu partido dominante - que era ele próprio. Pediu justiça para o visconde. E a justiça foi feita. Hoje se reconhecem que o visconde da Parnaíba representa dos mais extraordinários governantes do Piauí. Se tinha defeitos, eram os defeitos que a sua época reclamava. Mas soube governar, e governou com o espírito lúcido a ponto de, quando lhe disseram que José Antônio Saraiva mudaria a capital para uma nova cidade criada as margens do Parnaíba e duvidaram que o fato se praticasse, o visconde, com lucidez, disse: "Ele leva a Capital de Oeiras para a nova cidade porque tem o poder na mão! e ai dos que têm o poder na mão! Fazem o que querem". Pois senhores, Anísio Brito fez escola, fez a revisão da história do Piauí, e os seus discípulos verdadeiros aí se encontram seguindo as lições do mestre estudioso, porque formou cultura com as lições da pesquisa, e da ciência. Fez-se a revisão da nossa história. Monsenhor Chaves, Odilon Nunes, Esmaragdo de Freitas, Hermínio Conde... Os discípulos lembram sempre o mestre. Embora Anísio esteja um tanto esquecido dos que foram ingratos com a sua memória, com a sua inteligência penetrante, ele enriqueceu e preservou o repositório das nossas tradições, revisando os fatos da história do Piauí, presente aqui na lembrança do seu espírito público e falará sempre à posteridade sobre a nossa história.


A. Tito Filho, Revista Presença, Teresina, nº ?, 1986, p. 22-24.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

PEQUENA CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DE CELSO PINHEIRO

Celso Pinheiro nasceu na pacata cidade piauiense de Barras aos 24 de novembro de 1877, mesmo ano do nascimento de José de Arimathéa Tito e Esmaragdo de Freitas e Sousa, o primeiro também barrense e outro da Vila da Manga, depois Colônia de São Pedro de Alcântara e afinal Floriano, no Piauí. Era Celso filho do terceiro casamento de João José Pinheiro desta vez com Raimunda Lima Pinheiro.

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Em 1902, jovem de 15 anos, já redigia, ao lado de Arimathéa, ambos alunos do velho Liceu Piauiense, o órgão estudantil "A Idéia". Em 1903, faz parte de "Esperança", de grêmio literário. Sucede-se a sua participação em folhas jornalísticas: "Andorinha", "Arrebol", "Mensageiro" (1904), "O Operário" (1906), "Alvorada" (1909) - entre outras. Convive desde a mocidade com os mais destacados intelectuais do seu tempo: Abdias Neves, Antonino Freire, Miguel Rosa, Clodoaldo Freitas, Joel Oliveira, Arimathéa Tito, Simplício Mendes, Zito Batista, Da Costa e Silva, Adolfo Alencar, Esmaragdo de Freitas, Benedito Pestana, Raul Nei da Silva, Jônatas Batista, Antônio Chaves, Mário Batista, Alcides e Lucídio Freitas, Cristino Castelo Branco, Baurélio Mangabeira, Higino Cunha, Matias Olimpio, Valdivino Tito, João Pinheiro, Saraiva de Lemos, Elias Martins, Pedro Borges, Nogueira Tapeti, Fenelon Castelo Branco, Odilo Costa, Anísio Brito, Benjamin Batista, Eurípedes Aguiar, Antonio Neves, Julio Martins Vieira, Durvalino Couto, Veras de Holanda, Cirilo Chaves, Vaz da Costa, Anízio Cavalcanti, Claudio Pacheco - e outros que a memória não reteve.

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Em 1907, saia "Almas Irmãs", volume de versos elaborados por Celso, Zito Batista e Antonino Chaves.

Entre 1912 e 1917, Celso publicou "Flor Incógnita", versos, "Poesias", alentado volume, publicou-se no ano de 1939, sob os auspícios da Academia Piauiense de Letras e do governo piauiense, em que se reuniu grande quantidade de poemas do consagrado artista do verso.

A quase totalidade da obra de Celso Pinheiro permanece inédita. Ele organizou-a em vida distribuindo-a em 16 títulos: "Prosa", 2 volumes - discursos, conferencias; crônicas, cartas, artigos de jornal; e poesia, mais de quatro mil sonetos, poemas de outras formas e sátiras políticas, com as seguintes denominações: "Cuore", dedicado aos pais, aos irmãos, aos filhos; "Flor Incógnita", para a esposa; "Dona Tristeza",a  companheira permanente das suas angustias; "Sombras", para as moças tuberculosas do tempo em que viveu; "Dindinha", a babá da meninice; "Tear de Sol", 3 volumes, subtitulado "Spleen", versos dos sofrimentos íntimos; "Poemas de Maio", plenos de religiosidade; "Poetes", a suavidade e a beleza dos crepúsculos; "Hino à França"; "Jardim de Mulheres", 2 volumes, enaltecimento às eternas namoradas do homem; "No Jardim de Academus", homenagem aos intelectuais do Piauí; "Estepes", de vário assunto; "Poemas da Morte", penúltimo livro, para o poeta o próprio canto de cisne; "Coroa de Espinho", terminado uma semana antes da morte do poeta.

De assunto político deixou para publicação: "O Incendiário de Teresina", "Demócrito de Sousa Filho", "Fernando de Noronha", "União Democrática Nacional do Piauí", "Da Constituição" e "Euripidianas".

Estas obras tratam dos terríveis dias dos incêndios criminosos na capital piauiense, primeiros anos da década de 40; do assassinato de jovem estudante num comício do Recife, em 1945; da ilha transformada em presídio, onde se recolheram os acusados de idéias socialistas, entre os quais o filho Celso Pinheiro Filho, espancado, serviciado e aleijado pela truculência policial; do grêmio partidário tão combatido pelo poeta, que militava no Partido Social Democrático; comentários sobre a Constituição do Piauí, elaborada no governo Rocha Furtado, em 1947, e finalmente das sátiras impiedosas que Celso dirigiu ao seu adversário, o terrível jornalista Eurípedes de Aguiar.

São obras que assinalam uma época de formidáveis paixões do partidarismo político piauiense.

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Vários fatores fazem a obra literária, mas a estética não se preocupa com exame da biografia do autor, ponto de partida da crítica psicanalítica. As concepções da literatura procedem das neuroses e dos sofrimentos do homem. Celso Pinheiro não se desgarraria da norma. Desde cedo sofreu física e espiritualmente. Milionário de angústias íntimas, alucinado de dor, contempla os martírios que a vida lhe impõe e constrói os versos científicos de que abarrota gavetas e armários caseiros. Ele mesmo conta a sua história sem remédio em cada poema que lhe colhe da lama em pranto.

Augusto dos Anjos realizou Eu com pedaços do coração maltratado. Deflorou e engravidou Maria, de humilde condição social. A mãe do poeta, senhora de engenho, mandou surrar a menina, que morreu da surra - ela e o rebento da barriga. Augusto sofreu conseqüências violentas desse drama doméstico, e tornou-se melancólico. Contou a tragédia no seu livro de tantas edições, acima referido. José Lins do Rego, conterrâneo do poeta, disse que ele escondia uma mágoa secreta, um rancor contra a própria mãe.

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Em 1972, sustentei que Martins Napoleão, magnífico poeta, aceitava nos seus poemas a morte como processo de extermínio do sofrimento. Assim como Celso Pinheiro, foi Napoleão, no uso da palavra como conteúdo da poesia, como mensagem poética. Em Tomás Gonzaga, tudo se expressa nos adjetivos formoso, lindo. Duro é o adjetivo de Camões. Em Álvares de Azevedo, pálido, lívido, frio. Napoleão se revela em essência pelo conceito: lágrima, pedra, sofrimento, amor, pedra, morte.

Celso Pinheiro consubstancia a angústia do homem do homem martirizado pela crueldade da vida. Os versos revelam o seu verdadeiro psiquismo. Emoção a cada instante e o vazio da alma fazem dele um dos grandes poetas nacionais. A dor possessiva sublimou-o em comoventes criações poéticas, que não pertencem ao parnasianismo nem ao simbolismo, como quis Agripino Grieco. Penso que ele pretendeu, da forma que Horácio de Almeida sentiu em Augusto dos Anjos, ocultar o pensamento, num modo de interpretar os profundos e martirizantes sentimentos íntimos e entregá-los ao mundo objetivo.


A. Tito Filho - In: Revista Presença, Ano VIII, 19, Teresina, Março/Dezembro, 1987, pág. 52-53.